5 de jun. de 2007

Luto pela falta de lutas

Tarde demais, e somente por um aviso externo é que percebi que somos todos fardos. Quando nossas pernas são fracas, seja lá qual for a metáfora, pesamos nos ombros de alguém.

Hoje percebi-me um peso, o que me pôs a repensar os valores que dou às coisas, e o modo como enxergo a superfície das pessoas, em especial as mais próximas a mim. Por vezes, aceito facilmente uma falsa transparência, uma falsa demonstração de que tudo vai bem, enquanto isto tudo esconde a mim e a outros da realidade, talvez em uma errada tentativa de proteger-nos de um mundo que de fato precisamos encarar.

Somos todos fardos, e por vezes, por mais que tentemos, não é nossa opção sermos ou não carregados. Nossas fraquezas são muitas, para termos total controle sobre quando caminhar.

A muralha ruiu, e a cidade podre por detrás me contagiou os pensamentos. Contrastes incomodam, não deveriam existir. Acho que só queria não pensar muito, e viver em aceitação e resignação. Não sonhar, não idealizar, não esperar. Simplesmente seguir caminhando na velocidade que o mundo estabelece como base.

A vida me dá uma vontade seca de chorar, e para isso não há solução.

Declaro luto permanente pela morte de todas as coisas que jamais chegarão a existir.

28 de mar. de 2007

"Ca(m, r, qu, s)inhos" ou "Despalavras"

São tantos os significados, e tão poucas as palavras para significá-los, que engasgam-se sem ao menos chegar na garganta

Partem os significados do peito, em pulsações biomecânicas

*tum tum, tum tum, tum tum*

Da cabeça, as palavras se empurram, se atropelam, se acotovelam, viajam ao encontro do significado em pulsações químico-elétricas

Sendo em maior número e tão mais rápidas, a mínima hesitação do significado dá às palavras vantagem considerável

Burras, por vezes saem pela boca sem nada significar. Em outras, perdem o ponto de encontro, seguem viagem e atropelam o significado que pensava se ia ou voltava pra casa

*tum tum tum tum tum tum*

Mesmo acelerado, o coração não alcança força para expulsar as confusas e nervosas palavras

O significado, pisoteado, tenta uma última manobra, agarrando-se a uma palavra rebelde, que corre na contramão

O par sai à boca balbuciado, talvez inaudível. Ou talvez não tenha mesmo saído, exceto na percepção confusa do significado que, distante do coração, sente-se mais livre

Coberto de suor com o nervosismo do momento, o autor finalmente respira.